terça-feira, 5 de junho de 2012

O que é a Bíblia?

“[...] Como todos os outros livros escritos, incluindo outros livros sacros, a Bíblia é em primeiro lugar (independentemente do valor que a atribuamos) um artefato humano, com uma história humana. É o produto de muitas diferentes mentes humanas de variadas habilidades, escrita por mãos humanas de variados poderes de coordenação, copiada e recopiada por escribas de inteligências variadas, impressa e encadernada por artesãos de diferentes padrões de destreza, lida e interpretada por judeus e cristãos, agnósticos e ateus, de diferentes abordagens hermenêuticas. É também um livro de origens e conteúdos muitíssimo variados. É uma antologia contendo antigas leis judaicas, lendas, mitos, hinos, canções, poemas de amor, provérbios, profecias, relatos, biografias, histórias, cartas, visões, ponderações filosóficas etc, escrita em períodos diferentes entre, digamos, o século VIII a.E.C. e o início do segundo século desta era. Seus muitos autores escreveram para atender as necessidades de seu próprio tempo, e não do nosso. Os historiadores dentre eles escreveram história como eles a viram, e apresentaram o passado de Israel em termos designados para atender as necessidades de sua própria agenda política ou religiosa, e não nossa agenda. A inspiração divina pode tê-los levado a escrever melhor do que eles sabiam, mas, no entanto, eles escreviam como seres humanos em favor de sua própria situação humana, e não poderiam saber que uso gerações posteriores fariam de suas obras ou que interpretações lhes atribuiriam. E sua obra é, em si mesma, parte da história, e os livros históricos da Bíblia são parte da historiografia antiga, devendo ser lidos e estudados juntamente com outros escritos antigos e outras evidências do passado. [...]” (BARTLETT, John R. What has archaeology to do with the Bible – or vice versa?. In: _________ (Ed.). Archaeology and Biblical Interpretation. Nova York, EUA: Routledge, 1997. p. 1.)




“Para pessoas modernas, intimamente familiarizadas com algumas das mais destacadas religiões ocidentais (o judaísmo, o cristianismo, o islamismo), pode ser difícil imaginar, mas os livros não representavam virtualmente nenhum papel nas religiões politeístas do antigo mundo ocidental. Essas religiões dedicavam-se quase exclusivamente a honrar os deuses por meio de atos rituais de sacrifício. Não havia doutrinas a aprender, explicadas em livros, e praticamente não havia princípios éticos a ser seguidos registrados em livros. Isso não significa que os adeptos das várias religiões politeístas não tivessem crenças em seus deuses ou não tivessem ética, mas crenças e éticas – por mais que isso soe estranho a ouvidos modernos – não desempenhavam papel algum na religião propriamente dita. Tratava-se de um domínio da filosofia pessoal, e as filosofias, claro, podiam estar nos livros. Visto que as próprias religiões antigas não exigiam conjuntos particulares de “retas doutrinas” ou, em sua maneira, de “códigos éticos”, os livros não desempenhavam função de destaque em seu meio.

Só o judaísmo insistia em leis, costumes e tradições ancestrais – e defendia que eles fossem registrados em livros sagrados, que gozavam, portanto, do status de “escritura” para o povo judeu. Durante o período que estamos estudando – o século I da era comum, quando os livros do Novo Testamento estavam sendo escritos –, judeus dispersos pelo Império Romano entendiam particularmente que Deus dera direção a seu povo nos escritos de Moisés, coletivamente chamados de Torah, termo que significa literalmente algo como “lei” ou “orientação”. A Torah consiste em cinco livros, algumas vezes chamados de Pentateuco (os “cinco rolos”), o início da Bíblia judaica (o Antigo Testamento cristão): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Ali se encontram os relatos da criação do mundo, do chamado a Israel para ser o povo de Deus, as histórias dos patriarcas e das matriarcas de Israel, o envolvimento de Deus com eles e, o mais importante (e mais extenso): as leis que Deus entregou a Moisés para indicar como seu povo devia adorá-lo e se comportar um com o outro e em comunidade. Eram as leis sagradas, que deviam ser aprendidas, discutidas e seguidas – e que, para isso, foram escritas em um conjunto de livros.

Os judeus tinham outros livros, que eram também muito importantes para sua vida religiosa, como por exemplo os livros dos profetas (como Isaías, Jeremias e Amós), os poéticos (Salmos) e os históricos (como Josué e Samuel). Por fim, algum tempo depois do início do cristianismo, uma série desses livros hebraicos – vinte e dois deles – passou a ser considerada cânon sagrado das Escrituras, a Bíblia judaica atual, aceita pelos cristãos como a primeira parte do cânon cristão, o Antigo Testamento.

Esses breves fatos sobre os judeus e seus textos escritos são importantes porque definem o cenário para o cristianismo, que é também, desde seus inícios, uma religião “do livro”. O cristianismo naturalmente começou com Jesus, que era um rabi (mestre) judeu que aceitava a autoridade da Torah e, possivelmente, outros livros sagrados judaicos, e que ensinava a própria interpretação desses livros aos seus discípulos. Assim como outros rabis de seu tempo, Jesus afirmava que Deus poderia ser encontrado nos textos sagrados, especialmente na Lei de Moisés. Ele lia as Escrituras, estudava-as, interpretava-as, era adepto delas e as ensinava. Seus seguidores eram, desde o início, judeus que tinham os livros de sua própria tradição em alta conta. Por isso, já desde os primeiros tempos do cristianismo, os adeptos dessa nova religião, os seguidores de Jesus, eram em tudo diferentes no Império Romano: à semelhança dos judeus antes deles, mas diferentemente de quase todos os demais, situavam a autoridade sagrada nos livros sagrados. Assim, desde o seu início, o cristianismo foi uma religião do livro.” (EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: quem mudou a Bíblia e por quê?. Tradução Marcos Marcionilo. São Paulo: Prestígio, 2006. p. 28-30.)