sexta-feira, 1 de junho de 2012

Problematizando o sentido do termo "Cristianismo"

[NOTA: Não acrescentarei nenhum comentário ao texto seguinte (assim como todos os outros publicados aqui), sua discussão será feita durante nossos encontros.]
 
“Talvez não seja supérfluo destacar também que doutrinas ou tendências que são designadas por nomes familiares terminados em -ismo ou -idade em geral não o são, embora ocasionalmente possam ser, unidades do tipo que o historiador de ideias procura discriminar. Pelo contrário, elas constituem comumente compostos aos quais seu método de análise precisa ser aplicado. Idealismo, romantismo, racionalismo, transcendentalismo, pragmatismo – todos esses termos problemáticos e normalmente obscurecedores do pensamento, que às vezes se desejaria ver expurgados do vocabulário do filósofo e do historiador, conjuntamente, são nomes de elementos complexos, e não de elementos simples – e de complexos em dois sentidos. Eles designam, via de regra, não uma doutrina, mas várias doutrinas distintas e frequentemente conflitantes, sustentadas por diferentes indivíduos ou grupos a cujos modos de pensar essas designações foram aplicadas, ou por esses próprios ou na terminologia tradicional dos historiadores. E cada uma dessas doutrinas, por sua vez, é suscetível de ser decomposta em elementos mais simples, frequentemente combinados de maneira muito estranha e derivados de uma variedade de motivos e influências históricas diferentes. O termo “Cristianismo”, por exemplo, não é o nome de nenhuma unidade simples do tipo pelo qual o historiador de ideias específicas procura. Com isso quero indicar não só o fato notório de que pessoas que igualmente professaram o Cristianismo e chamaram a si mesmas de cristãs mantiveram, no curso da história, toda a espécie de crenças distintas e conflitantes agrupadas sob esse nome, mas também que qualquer uma dessas pessoas e seitas mantiveram, via de regra, sob esse nome um conjunto de ideias muito variadas, cuja combinação dentro de um conglomerado que traz um único nome e que se supunha constituir uma unidade real foi em geral o resultado de processos históricos de um gênero altamente complicado e curioso. Evidentemente, é apropriado e necessário que os historiadores eclesiásticos escrevam livros sobre a história do Cristianismo; mas ao fazê-lo dessa maneira eles têm escrito sobre uma série de fatos que, tomados como um todo, não têm quase nada em comum, a não ser o nome; a parte do mundo em que ocorreram; a reverência a certas pessoas, cuja natureza e doutrina, entretanto, têm sido muito diversamente compreendidas, de modo que, aqui também, a unidade é em grande parte uma unidade de nome; e a identidade de uma parte de seus antecedentes históricos, de certas causas ou influências, as quais, combinadas diversamente com outras causas, fizeram cada um desses sistemas de crenças ser o que é. Em toda a série de credos e movimentos agrupados sob o mesmo nome, e em cada um deles separadamente, é necessário ir além da aparência superficial de unicidade e identidade, para quebrar a concha que mantém a massa unida, se quisermos ver as unidades reais, as ideias que operam efetivamente e que estão presentes em qualquer caso dado.” (LOVEJOY, Arthur O. A Grande Cadeia do Ser: Um Estudo da História de Uma Ideia. Tradução Aldo Fernando Barbieri. São Paulo: Palíndromo, 2005. p. 15-16.)


A diversidade pode ser facilmente explicada no aqui e agora em termos de distância geográfica, diferença cultural, e caminhos diferentes para o desenvolvimento social e econômico. Contudo, a perspectiva histórica oferece uma visão particularmente indispensável a toda essa variedade. Onde houver um desacordo moderno sobre uma questão de política, os antecedentes históricos dos argumentos apresentados podem esclarecer porquê as pessoas pensam como pensam. Algumas divisões na Igreja são meramente o legado de fraturas sobre o que pareciam, em épocas passadas, ser princípios absolutamente fundamentais, mas que não mais correspondem às preocupações modernas. Se se percebe a distância entre a presente era e aquelas nas quais as rupturas ocorreram, a reconciliação pode ser mais fácil de alcançar. Por outro lado, as atitudes de cristãos do passado para com alguns temas, ou mesmo sua completa falta de interesse por uma questão que agora pareça crucial, pode parecer tão estranho que as desacordos presentes sobre temas “modernos” sejam insignificantes. […] Aprende-se a perceber o próprio passado como se este fosse uma cultura estranha: mas não se pode descartá-lo como meramente um “outro”, pois é a fonte da experiência moderna, ao mesmo tempo em que é estranho a ela. O estudo histórico também pode proteger contra o abuso de a evidência textual ser retirada de seu contexto original, um vício teológico que afetou as igrejas no passado.

Entretanto, observar a história das igrejas também representa um desafio ao observador. Até mesmo um secular que não seja cristão pode desejar saber, como mera questão de compreensão analítica, qual desses múltiplos sistemas de crença representa o Cristianismo em sua forma mais típica e característica. Como definir o Cristianismo? Para o devoto, entretanto, a questão é ainda mais premente. Quão seguro pode se sentir o membro de uma comunidade distinta do movimento cristão de que tenha absorvido a essência do que seja a promessa do evangelho? Quão importante é ser um membro desta ou daquela tradição contínua, ou de qualquer outra? Se as divergências entre diferentes tradições cristãs derivam (como muitas delas) de divergências teológicas ou institucionais indiscutivelmente obsoletas, por que dar prioridade a uma tradição em detrimento de outra? Por que manter tantas tradições distintas existindo?” (CAMERON, Euan. Interpreting Christian History: The Challenge of the Churches' Past. Malden, EUA: Blackwell, 2005. p. 4.)