sábado, 2 de junho de 2012

Para pensar o fazer historiográfico


[NOTA: Não acrescentarei nenhum comentário a esses textos (assim como todos os outros publicados aqui), sua discussão será feita durante nossos encontros.] 

“[...] O historiador não é um cientista num laboratório, onde agentes e catalisadores podem ser isolados e testados em experiências controladas, e sim um artista que enfrenta um mundo confuso, um imenso panorama de contingências.[...]” (COLLINSON, Patrick. A Reforma. Tradução S. Duarte. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006. p.229.)



História é algo bem distinto de fatos. Os historiadores não perguntam apenas “O que aconteceu?”, mas também “Por quê?”, “Como?” e “Quais foram as consequências?” Usam, então, as respostas a estas e a outras questões para criar os elos de cadeias de eventos, formando uma narrativa contínua. É a partir dessas perguntas e das conclusões a que os historiadores chegam que o passado se torna, para a maioria de nós, um campo muito mais compreensível.” (PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: História Mundial. Tradução Maria Alice Máximo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 14.)



O processo histórico nos ajuda a ver que os eventos da história não ocorrem isoladamente. Nem a fé cristã se desenvolveu isoladamente. Em vez disso, a história ocorre no contexto da cultura. Os sociólogos dizem que uma cultura é a forma de vida característica de um grupo. Uma cultura inclui as criações físicas de um povo e seus comportamentos e crenças aprendidos e compartilhados.
[…]
Os historiadores sabem que essa rede de padrões complexos e mutantes se estende para além do momento presente. Algo que acontece agora pode estar relacionado com eventos e mudanças no passado distante. Certas ligações entre esses eventos presentes e passados podem, então, ser estabelecidas. Pode-se até mesmo dizer que o presente “nasceu” do passado. Assim, os historiadores veem o processo histórico como uma rede inter-relacionada de pessoas, ideias, e instituições onde existem mudança e continuidade. É nessa rede dinâmica que os eventos da história ocorrem.” (PETERSON, R. Dean. A Concise History of Christianity. Belmont, EUA: Wadsworth, 1993. p. 3-4.)



“Por ser um produto humano, todo produto historiográfico baseia-se necessariamente em toda uma série de escolhas e decisões pessoais, que de alguma maneira são condicionadas (observe-se que evitamos a palavra determinação). Toca-se aqui uma problemática que, na terminologia habitual, é a do subjetivismo e da exigência e da possibilidade de uma historiografia objetiva. Essa terminologia – ainda que válida e inevitável in philosophicis – leva a muita confusão e mal-entendidos se utilizada fora do ambiente da discussão “técnica”.
[…] Com a expressão “objetivo” entenderemos aquilo que não depende (mais) de nossa escolha, ou melhor, criação: “definimos a 'realidade' uma característica própria daqueles fenômenos que reconhecemos como independentes de nossa vontade (ou seja, não podemos 'fazê-los desaparecer simplesmente desejando que desapareçam')”; in historicis seriam os fatos que aconteceram e que são lembrados, e, portanto, passíveis de constatação: em 818 morre Carlos Magno; em 1776, as Colônias britânicas na América do Norte declaram sua independência. Deve-se constatar que esses fatos objetivos são sempre mediados de uma forma subjetiva; somente pessoas – sujeitos – podem transmitir o conhecimento desses fatos, ainda que utilizem objetos para a comunicação desse conhecimento. Mas aqui subjetividade não significa “invenção”, “distorção”, “fantasia”, “emoção”. E tampouco um julgamento pessoal (“Carlos Magno era um grande homem”); mesmo sendo uma mediação subjetiva, por essa razão não é necessariamente uma invenção, ainda que se passe do constatável ao opinável. Poder-se-ia evitar a confusão a respeito da exigência de “objetividade” do historiador falando de sua honestidade como característica a ser constatada ou exigida: ele não deve esconder, ou pior, destruir os dados que não se enquadram em sua maneira de pensar, não deve inventar ou mudar os dados. Claramente, a honestidade por si só não basta, é preciso também a seriedade.” (CHAPPIN, Marcel. Introdução à História da Igreja. Tradução Pier Luigi Cabra. São Paulo: Loyola, 1999. p. 71-72.)



[...] Não é necessário que dois historiadores que abordem um mesmo assunto cheguem a resultados comuns – é indispensável que o diálogo objetivo, racional e documentado possa se dar entre os dois, de tal forma que ambos compreendam onde se separam, por que se separam e como chegaram a resultados diferentes. Se há resultados diferentes é porque houve problematização diferente, hipóteses diferentes, uso diferente da documentação, mesmo que tenha sido a mesma. Entretanto, se essa diferença pode ser comunicada, se é racional, torna-se conhecimento.[...] (REIS, José Carlos. História & Teoria: Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. p. 87.)