terça-feira, 3 de julho de 2012

2º Encontro - Resumo das Discussões


1) Uma breve revisão do que vimos ontem.

2) Fontes de autoridade no pensamento cristão → teologicamente, nos referimos a isso como “fontes da teologia cristã”:

A teologia cristã, ou seja, o pensamento cristão – como a maioria das disciplinas teóricas – baseia-se em diferentes fontes. Tem havido uma considerável discussão na tradição cristã sobre a identidade dessas fontes, e sobre sua importância para a análise teológica. De modo geral, pelo menos três fontes são aceitas para a formação do pensamento cristão:

  • Escritura
  • Tradição
  • Razão

Um outro elemento explicitamente enumerado – no meio teológico protestante – é a “experiência”. Entretanto, para a época que estamos analisando em nosso curso, aqueles três elementos formam a base do pensamento cristão.


3) Escritura(s)

Um corpo de textos que são reconhecidos como autorizados – ou como possuindo autoridade – para o pensamento cristão, embora a natureza e a extensão de tal autoridade sejam uma questão de debate contínuo. No cristianismo, Escritura(s) é sinônimo de Bíblia.


4) Métodos de interpretação da Bíblia

EXEGESE → interpretação ou explicação crítica dum texto.

HERMENÊUTICA → teoria da interpretação, o estudo do próprio processo interpretativo.

Escola Alexandrina de Exegese Bíblica:
baseada nos métodos do autor judeu Fílon de Alexandria (c. 30 A.E.C. – 45 E.C.) e de tradições judaicas mais antigas:
interpretação literal suplementada por um apelo à alegoria – olhar através do sentido superficial da Escritura p/discernir sentido + profundo abaixo da superfície do texto;
ideias aceitas por grupo de teólogos de Alexandria: Clemente, Orígenes, Dídimo (o Cego).

Escola Antioquina de Exegese Bíblica:
→ centrada na cidade de Antioquia (na atual Turquia);
exegese à luz do contexto histórico da Escritura;
Diodoro de Tarso (? - 390 E.C.); João Crisóstomo (c. 347 – 407 E.C.); Teodoro de Mopsuéstia (c. 350 – 428 E.C.).

Exegese na Igreja Ocidental:

Ambrósio de Milão (c. 337 – 397 E.C.) – Bispo de Milão – desenvolveu uma tripla compreensão dos sentidos da Escritura:
- sentido natural;
- sentido moral;
- sentido racional/teológico.

Agostinho de Hipona (354 – 430 E.C.) – Bispo de Hipona – argumentou em favor duma compreensão dupla do sentido das Escrituras:
- sentido literal-carnal-histórico;
- sentido alegórico-místico-espiritual.

Quadriga:
método exegético padrão na Idade Média (Ocidente), baseado na distinção entre sentidos literal/histórico e espiritual/alegórico;
Quadriga = 4 sentidos da Escritura:
- sentido literal;
- sentido alegórico;
- sentido tropológico/moral;
- sentido anagógico (do gr. “anagoge” → conduzir, levar a).

Nossa abordagem exegética: Abordagem histórico-metafórica:
  • histórica – todos os métodos relevantes para discernir os sentidos históricos antigos dos textos bíblicos;
  • metafórica – uma maneira não-literal de ler os textos bíblicos.
Para nós:
Bíblia = História + Metáfora

Crítica Bíblica:
  • Investigação que busca determinar o texto, a autoria, a data, as fontes, o modo de composição, a estrutura, as categorias literárias, o estilo e o objetivo originais de um texto bíblico, usando uma variedade de abordagens relacionadas à crítica literária.
  • Organizou-se como disciplina de estudos no século XVIII, na Alemanha.

Abordagens da Crítica Bíblica:
  • Crítica Textual (Baixa Crítica): tentativa de recuperar as palavras originais dum documento dos quais temos apenas cópias.
  • Crítica Histórica (Alta Crítica): estuda a estrutura dum texto para determinar a história de sua composição (data, autoria, fontes usadas) a partir de evidências no próprio texto.

Metodologias da Crítica Histórica:
  • Crítica da fonte: tentativa de discernir as fontes + antigas de alguns textos bíblicos;
  • Crítica da forma: estudo de formas orais da tradição e seu locus nas antigas comunidades que produziram os textos bíblicos;
  • Crítica da redação: foca-se nas intenções do(s) autor(es)/redator(es) que deram ao documento sua forma final;
  • Crítica canônica: busca o sentido de passagens dentro do contexto do cânon como um todo.
  • Crítica da Tradição/Transmissão: busca analisar o processo pelo qual as tradições bíblicas passaram duma geração à outra, e da tradição oral à tradição escrita.


Abordagem Metafórica:
  • Linguagem metafórica = não-literal;
  • Linguagem Metafórica tem mais de uma nuança ou ressonância de significado, i.e., ela é multivalente, possui uma pluralidade de associações;
  • Metáfora = arte verbal/linguística;
  • Enfatiza uma verdade não necessariamente factual, i.e., verdade não é = factualidade;
  • Abordagem Metafórica enfatiza metáforas e suas associações, e inclui tipos de interpretação mais antigos (Quadriga, por exemplo).


5) As Narrativas da Criação no Gênesis:

Gênesis 1–3 → duas narrativas bem diferentes da Criação, escritas c/diferença aprox. de 400 anos:
  • Gênesis 2:4 – 3:24 → a mais antiga → c. 900 a.E.C. → chamada de narrativa “J” (por seu[s] autor[es] chamar[em] seu Deus de “Javé”) → parte duma narrativa maior das origens israelitas.

  • Gênesis 1:1 - 2:3 → c. 500 a.E.C. → chamada de narrativa “E” (por seu[s] autor[es] chamar[em] seu Deus de “Elohim”) → também parte dum bloco maior de material do Pentateuco, refletindo preocupações sacerdotais e rituais.

Uma leitura superficial da narrativa “E”:
  • Gênesis 1:1 – 2:4a
  • Terra “sem forma e vazia”;
  • Elohim cria o universo em 6 dias → numa construção literária repetida p/cada dia da criação: “Deus disse... e assim se fez... e Deus chamou... e Deus viu que era bom...”;
  • Há correlações interessantes entre o que é criado nos três primeiros dias e o que é criado nos três dias seguintes:
Dia 1: luz                               Dia 4: Sol, Lua e estrelas
Dia 2: águas e o céu           Dia 5: vida aquática e pássaros
Dia 3: terra seca                 Dia 6: criaturas terrestres
  • Homem e mulher são criados simultaneamente.
  • Elohim: “Então Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança...” (Gen. 1:26-27)
→ “Elohim” (plural de “El”): termo que significava tudo o que os deuses poderiam significar para os mortais;
→ Comparar esse uso pluralizado com: 1 Reis 22:19-23 – Deus como um rei cercado por sua corte.

Uma leitura superficial da narrativa “J”:
  • Gênesis 2:4b – 3:23
  • Focada na criação da humanidade, não menciona detalhes da criação do mundo;
  • O homem é criado primeiro – a criação de masculino e feminino não é simultânea;
  • Javé planta um jardim em Éden, onde coloca “adham”, dando-lhe permissão para comer de todas as árvores, exceto uma (2:17);
  • Javé cria companheiros para o homem: primeiro, os animais; depois, “heva” é criada;
  • A serpente e o “fruto” entram em cena.

Questão para refletirmos:
Por que os antigos hebreus contaram essa história, e por que contaram-na dessa forma?

6) Sexualidade, casamento e procriação:

Casamento na tradição judaica no século I E.C.:
  • Mestres judeus da época de Jesus ensinavam que certas práticas sexuais pagãs eram abomináveis: pederastia, promiscuidade e incesto;
  • Só a adoração aos deuses pagãos era mais ofensivo à sensibilidade hebraica que essas práticas;
  • O propósito do “casamento” era a procriação → as comunidades judaicas herdaram seus costumes sexuais de ancestrais nômades cuja sobrevivência dependia da reprodução;
  • De acordo com a narrativa de Abraão (Gen. 22), a grande benção prometida por Deus fora uma descendência inumerável (v.17);
  • Prostituição, certas práticas sexuais entre homens, aborto, e infanticídio – práticas legalmente toleradas entre alguns de seus vizinhos gentios – contradiziam os costumes e as leis judaicas;
  • Poligamia e divórcio aumentavam as oportunidades de reprodução – para os homens, i.e –; a lei judaica exigia que um homem que estivesse casado há 10 anos e não tivesse filhos ou divorciasse sua mulher e se casasse com outra, ou que mantivesse sua mulher estéril e se casasse com uma segunda para ter filhos.

“Um homem não se absterá do dever de ser frutífero e multiplicar, a não ser que já tenha filhos. Quanto ao número, a escola de Shammai julgou: dois homens; e a escola de Hillel julgou: um homem e uma mulher, pois está declarado nas Escrituras 'Homem e mulher Ele os criou' (Gênesis 5:2). Se um homem tomou uma esposa e viveu com ela por dez anos e ela não gerou nenhum filho, ele não pode abster-se mais do dever de procriação e deve tomar outra esposa. Se ele a divorciar, ela terá permissão de casar-se de novo, e o segundo marido pode também viver com ela por não mais que dez anos se ela não tiver filhos dele. Se ela abortar espontaneamente, o período de dez anos é contado a partir do aborto. Os homens são ordenados a cumprir o mandamento da procriação, mas não as mulheres. O Rabino Yoharan ben Benoka diz: ambos são ordenados, pois, sobre eles Ele disse “e Deus os abençoou e disse-lhes 'Sede frutíferos e multiplicai'”, incluindo, portanto, ambos no mandamento.” (Mishnah Yebamot 6:6)


NOTA: Paramos neste trecho da Yebamot, em nosso próximo encontro – espero que amanhã (dependendo de como ficará a situação de transporte na Região Metropolitana do Recife) – discutiremos as alternativas oferecidas pelo Movimento de Jesus e nos esforçaremos para alcançar o planejamento original.