sexta-feira, 6 de julho de 2012

5º Encontro - Resumo das Discussões


1) A guerra entre dois grandes teólogos:

  • AGOSTINHO DE HIPONA [354 – 430 E.C.] → Bispo de Hipona (na atual Argélia);
  • JULIANO DE ECLANO [c. 386 – c. 455 E.C.] → Bispo de Eclano (na atual Itália);
  • de 419 até a morte de Agostinho (430), Agostinho e Juliano se debateram incansavelmente através de livros, folhetos, cartas e sermões;
  • grosso modo, Juliano mantinha uma visão positiva da natureza humana, enquanto Agostinho defendia uma visão da natureza humana como decadente, caída.

“Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: 'Não mate! Quem matar será condenado pelo tribunal'. Eu, porém, lhes digo: todo aquele que fica com raiva do seu irmão se torna réu perante o tribunal […]” (Mateus 5:21-26)

Teria o homem o poder de mudar seu comportamento? O poder de controlar seus instintos, de dominar a si mesmo? → Para Juliano, quando Jesus faz essas afirmações em Mateus 5, ele estaria dizendo que sim: o homem pode e deve ter domínio sobre si próprio!

Já que a morte veio, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos receberão a vida.” (1 Coríntios 15:21-22)

O último inimigo a ser destruído será a morte”. (1 Coríntios 15:26)

Agostinho, por outro lado, afirma que a morte, o sofrimento, as durezas da vida entraram no mundo por meio do pecado do homem: o homem, aparentemente, tinha um poder de alterar a própria essência da natureza por meio de sua transgressão:

“A natureza, que o primeiro ser humano feriu, é miserável. […] O que foi transmitido às mulheres não foi a carga da fertilidade de Eva, mas o peso de sua transgressão. Agora, a fertilidade opera sob esta carga, tendo caído [i.e., se afastado] da benção de Deus.” (Agostinho. Contra Julianum)

A resposta de Juliano: “O que é natural não pode ser chamado de mau.”
  • Mesmo antes do pecado, a tarefa de Adão era cultivar o jardim (Gên. 2:15), e a tarefa de Eva era ter filhos (Gên. 1:28);
  • como contrações são uma parte natural do parto, então o suor, o cansaço e a dor física são parte natural do homem.
  • “O suor é uma ajuda natural no cansaço físico, e não uma punição pelo pecado […] Alguns trabalham com esforço físico; outros, com responsabilidades.”

2) Uma Interpretação Metafórica do Mito do Éden:

Que pessoa inteligente pode imaginar que houve um primeiro dia, e depois um segundo dia, noite e manhã, sem o sol, a lua, e as estrelas? E que o primeiro dia, se faz sentido chamá-lo assim, existiu sem um céu? Quem é suficientemente bobo para acreditar que, como um jardineiro humano, Deus plantou um jardim em Éden, no Oriente, e nele colocou uma árvore da vida, visível e física, de forma que se alguém mordesse seu fruto obteria vida? E que comendo de outra árvore, conheceria o bem e o mal? E quando se diz que Deus andou pelo jardim ao anoitecer e que Adão se escondeu atrás duma árvore, não posso imaginar que alguém duvidaria que esses detalhes apontam simbolicamente para sentidos espirituais fazendo uso de uma narrativa histórica que não aconteceu literalmente.” (Orígenes [c. 184-253 E.C.]. De principiis 4.1.16.)

  • É importante lembrar que essas narrativas são mitos.
  • No estudo da religião, mitos não são mentiras, não são explicações, não são ciência primitiva, não são crenças errôneas;
  • Mitos são narrativas metafóricas sobre a relação entre este mundo e o sagrado; tipicamente falam sobre o começo e o fim do mundo, sua origem e destino, em relação a Deus;
  • mitos usam uma linguagem não-literal – significando que não narram fatos.
  • Mito e realidade não são opostos – eles andam juntos: mito = a linguagem p/falar sobre o que é fundamentalmente real. Mitos são verdadeiros, mesmo que não literalmente verdadeiros.
Caso tenham interesse em entender como a questão da relação entre mito e verdade é trabalhado por um estudioso da religião, não deixem de ler “Mito e Realidade” de Mircea Eliade – que por um descuido meu não está na lista bibliográfica que vocês receberam em seu material.

DEUS COMO CRIADOR:
  • Para os antigos hebreus: Deus é a fonte de tudo o que há.
  • Para o pensamento cristão:
1) a criação é uma origem histórica – i.e., num momento particular do passado, Deus criou;
2) a criação aponta p/uma relação de “dependência ontológica” – i.e., Deus é a fonte de toda a existência em todos os momentos do tempo (não a fonte do que acontece!).

A RELAÇÃO DEUS-MUNDO:
1) O modelo de produção: como um artista, Deus cria o universo como algo distinto de si – uma vez criado, o universo existe separado de Deus → TEÍSMO SOBRENATURAL.
2) O modelo procriativo/emanacionista: Deus origina o universo a partir de seu próprio ser – Deus não é o universo, nem vice-versa, pois Deus é mais que o universo; o universo está “em Deus” → PANENTEÍSMO (pan = tudo; en = em; theos = Deus).

A NATUREZA DA REALIDADE:
E Deus viu que era bom.”
  • O mito bíblico da criação descreve a existência em termos afirmadores;
  • o Gênesis afirma ser o mundo a boa criação do bom Deus.

A NATUREZA HUMANA:
O mito da criação afirma 2 coisas sobre nós:
1) Somos o ápice da criação, criados à imagem de Deus e recebendo domínio sobre a criação;
2) mas também somos criaturas de “terra”: adham (humanidade) deriva da palavra adhamah (chão, terra) → Gênesis 3:19 (últimas palavras ditas por Deus a Adão no Jardim).

A QUEDA:
  • O termo “queda” p/referir-se ao mito de Adão e Eva é uma criação cristã – não existe no judaísmo;
  • esse termo está associado à ideia de “pecado original” – ideia atribuída a Agostinho de Hipona – que não está presente no texto per se;
  • a ideia de “pecado original” (como ensinada posteriormente por Agostinho) não está no texto, mas algo errado acontece depois da “maçã” entrar em cena.

QUAL FOI O PECADO?
1) O primeiro ato de desobediência → o pecado é desobedecer a Deus, o legislador;
2) O primeiro ato de hubris (gr. “orgulho”) → exceder o limite próprio, dando a si o lugar que pertence ao divino (“tornar-se como Deus”), tornar-se o centro → o pecado é o egocentrismo;
3) O primeiro ato de heteronomia (o oposto de autonomia) – em relação a seguir o que diz a Serpente, no mito → o pecado é ser a “Maria vai com as outras”. [Paul Tillich]