quinta-feira, 5 de julho de 2012

4º Encontro - Resumo das discussões


1) Valentim [c. 100 - c. 160 E.C.]:

  • Mais conhecido teólogo cristão gnóstico;
  • organizou sua “escola” em Roma;
  • conclamou os cristãos a buscarem iluminação espiritual;
  • ensinava que havia 3 tipos de pessoas: espirituais, psíquicas e materiais, e que só aqueles de natureza espiritual (i.e., seus seguidores) receberiam a gnosis (o conhecimento), que faria com que retornassem à “plenitude” (Pleroma) divina.

2) Gnósticos, casamento, procriação:
Os cristãos gnósticos também eram variados:
  • alguns endorsavam o casamento e a procriação – a exemplo dos ortodoxos;
  • outros rejeitavam tais hábitos, apoiando aqueles cristãos ascetas condenados por Clemente de Alexandria, por exemplo.
3) A história do Jardim do Éden na visão da Serpente:

  • O Testemunho da Verdade”: um escrito de um autor gnóstico (desconhecido) – um manuscrito da Biblioteca de Nag Hammedi;
  • descreve a serpente como um mestre da sabedoria divina que tentou fazer com que Adão e Eva vissem a verdadeira natureza do criador.

“Está escrito na Lei sobre isso, quando Deus deu um mandamento a Adão: “Você pode comer de toda árvore, mas daquela que está no meio do Jardim não coma, pois no dia em que você comer dela, certamente morrerá”. Mas a serpente era mais sábia que todos os animais que estavam no Paraíso, e [ele] persuadiu Eva, dizendo: “No dia em que você comer da árvore que está no meio do Paraíso, os olhos de sua mente se abrirão”. E Eva obedeceu, e estendeu sua mão, pegou o fruto e comeu; e também deu a seu marido [que estava] com ela. E imediatamente souberam que estavam nus, e pegaram umas filhas de figo e usaram-nas como cintas.
Mas Deus veio à noite, caminhando no meio do Paraíso. Quando Adão o viu, se escondeu. E ele disse: “Adão, onde está você?” Ele respondeu e disse: “Vim para baixo da figueira”. E, naquele exato momento, Deus soube que ele tinha comido da árvore sobre a qual ordenara-lhe: “Dela não coma”. E ele disse: “Quem instruiu você?” E Adão respondeu: “A mulher que você me deu”. E a mulher disse: “Foi a serpente quem me instruiu”. E Deus amaldiçoou a serpente, e chamou-lhe de diabo. E ele disse: “Vamos expulsá-lo do paraíso, para que não tome da árvore da vida, e coma, e viva para sempre”.
Mas que tipo de Deus é esse? Em primeiro lugar, ele maliciosamente proibiu Adão de comer da árvore do conhecimento, e, em segundo lugar, ele disse: “Adão, onde está você?” Deus não tem conhecimento do futuro? Ele não saberia desde o começo? E depois ele disse: “Vamos expulsá-lo deste lugar, para que não coma da árvore da vida e viva para sempre”. Certamente, ele se mostra maliciosamente rancoroso. E que tipo de Deus é esse? Pois grande é a cegueira daqueles que leem, e eles não o conheciam. E ele disse: “Sou o deus ciumento; trarei os pecados dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta gerações” [cf. Êxodo 20:5]. E ele disse: “Endurecerei seus corações, e farei com que suas mentes se tornem cegas, para que não conheçam nem compreendam as coisas que são ditas”. Mas isso ele disse àqueles que acreditam nele e o servem.
E, em um lugar, Moisés escreve: “Ele fez do diabo uma serpente para aqueles que ele tem em sua geração”. Também, no livro que se chama Êxodo, está escrito assim: “Ele disputou com os mágicos, quando o lugar estava cheio de serpentes de acordo com sua iniquidade; e a vara que estava na mão de Moisés se tornou uma serpente, e engoliu as serpentes dos mágicos” [cf. Êxodo 7:8-13].
(Trechos de “O Testemunho da Verdade” - NOTA: a serpente é masculina no texto)

4) “Criados à imagem de Deus”?

→ Para Clemente de Alexandria (um “ortodoxo”), isso significa que os seres humanos têm algo que ele chama AUTEXOUSIA = o poder para constiuir-se como ser – geralmente traduzido como “livre-arbítrio” → liberdade moral.

“Uma alma sempre possui autexousia, estando no corpo ou fora dele”. (Orígenes, c. 225 E.C.)

5) O papel das mulheres no Movimento de Jesus e no Cristianismo:

  • Jesus aceitou mulheres como discípulas → implicitamente declarando que sua pureza era igual à dos homens, apesar da impureza de seu ciclo menstrual;
  • a Mishnah Nedarim 10:1-11:12 indica que as mulheres podiam participar dos estudos rabínicos, apesar de haver uma série de restrições no tocante às regras de pureza e à sua relação com o sexo oposto;
  • a diferença entre o modo como, supostamente, Jesus lidava com as mulheres e a maneira como os rabinos tradicionalmente o faziam era o seu (suposto) contato físico com essas suas seguidoras;
  • seu costume de aceitar seguidoras abriu a janela para que ele fosse acusado de impropriedade sexual – ele era agora chamado de comilão, beberrão, e amigo de cobradores de impostos e pecadores (Mateus 11:19; Lucas 7:34); essa última categoria referia-se especialmente a mulheres de comportamento sexual suspeito. Ficar sozinha com um homem num lugar privado, sem a presença duma terceira pessoa, tornavam uma mulher suspeita para alguns (Mishnah Sotah 1:2; Talmud de Jerusalém: Sotah 3:4);
  • a mulher anônima, na casa de Simão, que tocou Jesus, lavando seus pés com seus cabelos, e cujo toque Jesus aceitou, era provavelmente suspeita desse tipo de comportamento sexual suspeito (Lucas 7:36-50); ser uma mamzer, ter um noivado desfeito, ou mesmo receber um dote de valor baixo dar à mulher esse tipo de reputação vergonhosa;
  • algumas das seguidoras de Jesus, não todas, provavelmente eram vistas como pecadoras. O autor do Evangelho de Lucas dá o nome de, pelo menos, três delas (Lucas 8:1-3): Maria de Magdala (ou Madalena), na Galileia; Joana, esposa dum alto funcionário de Herodes; e Susana; além das outras não citadas por nome. Maria, de acordo com o autor desse evangelho, tinha sete demônios dos quais tinha sido curada (v. 2), e evidentemente estava entre as pecadoras; a enumeração de seus sete demônios sugerem que Jesus a havia exorcizado repetidas vezes;
  • não podemos fazer nenhuma afirmação histórica sobre se Jesus foi casado ou não com Maria Madalena – já discutimos os obstáculos para que ele se casasse com uma mulher que não fosse uma mamzer como ele –, mas é bom observar o seguinte: o contato sexual com uma mulher solteira que não fosse virgem, especialmente uma pecadora com um passado de “possessão demoníaca”, não constituiria adultério (tomar a esposa de outro) ou sedução (seduzir uma virgem solteira que fosse prometida a outro), de acordo com a Lei (Deuteronômio 22:22-29). Não sabemos se Jesus teve qualquer tipo de contato sexual com mulheres em sua vida, mas se isso aconteceu (e o universo cultural judaico do qual ele era parte não conhecia o conceito cristão de “celibato” – é bom enfatizar), Maria Madalena parece ter sido a melhor candidata – mas vou deixar essas especulações para Dan Brown!
  • A feminilidade na mente de Jesus era algo maior que uma simples questão de gênero: o pensamento judaico era o de que a imagem de Deus, impressa em cada ser humano, era masculina e feminina (Gênesis 1:27), e o Espírito (ruach) – uma palavra feminina tanto em hebraico quanto em aramaico, apesar de masculina em grego e latim (as versões utilizadas pela Igreja na construção de suas doutrinas sobre a Trindade) – era compreendido como uma mulher. Ela participou da criação juntamente com Deus (Gênesis 1:2), e era também chamada de Sabedoria (Provérbios 8:22-31). Essa era a tradição da religião praticada por Jesus, e nada indica que ele compreendesse as coisas de outra forma – pelo contrário: sua relação com as mulheres indica que ele levava isso muito mais à sério que os seus adversários. Pensem em algumas imagens utilizadas em suas parábolas: uma mulher trabalhando o fermento (Lucas 13:21); uma galinha trazendo os pintinhos para baixo de suas asas (Mateus 23:37); ele falando em nome da Sabedoria (Lucas 11:49) – todas essas são figuras extremamente femininas! Por quê?
  • Tentamos analisar a maneira como outros trechos do Novo Testamento se referiam às mulheres, tendo observado a questão das viúvas: Tiago 1:26-27 → que é um texto muito judaico em suas concepções da fé como uma ortopráxis (=prática correta); 1 Timóteo 5:3-16 → que toma um caminho diferente para lidar com as viúvas e mulheres; 1 Coríntios 14:34-35 → o clássico texto do “silêncio das mulheres” nas igrejas.
  • Outros trechos do Novo Testamento oferecem evidências sobre as funções exercidas por mulheres no Movimento de Jesus: Filipenses 4:2-3; 1 Coríntios 16:19; Atos 18:18; Atos 21:9; Romanos 16:1-4, 7 → Febe (Rom. 16:1-2), por exemplo, é chamado, no texto grego, de “adelfe” (irmã), “diakonos” (diácono) e “prostatis” (patrona, ajudadora, protetora, patrocinadora) – e esses são títulos de funções; em Rom 16:7, Júnia (nome feminino, e não masculino como insinuam algumas traduções) é chamada, juntamente com Andrônico (um homem) de apóstolo!
  • Afirmei que a história cristã é uma história de transformações que aconteceram durante um longo processo de idas e vindas – abandonos e retornos a uma tradição anterior, além da absorção de elementos da cultura na qual as igrejas estavam. Os cristianismos de hoje não são os mesmos que existiam há quase dois milênios atrás.