quarta-feira, 4 de julho de 2012

3º Encontro - Resumo das Discussões


1) A diferença entre a (suposta) visão de Jesus sobre casamento e vida familiar e aquela tradicionalmente ensinada no judaísmo rabínico:

Eu vim para lançar fogo sobre a terra: e como gostaria que já estivesse aceso! […] Vocês pensam que vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão.” (Lucas 12:49-51)

Alguns fariseus se aproximaram de Jesus e perguntaram, para o tentar: 'É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?' Jesus respondeu: 'Vocês nunca leram que o criador, desde o início, os fez homem e mulher? E que ele disse: 'Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne'? Assim, eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar. […] Eu, por isso, digo a vocês: quem se divorciar de sua mulher, a não ser em caso de fornicação, e casar-se com outra, comete adultério.” (Mateus 19:3-6, 9)

Porque dias virão, em que se dirá: 'Felizes das mulheres que nunca tiveram filhos, dos ventres que nunca deram à luz e dos seios que nunca amamentaram.'” (Lucas 23:29)

Se alguém vem a mim, e não dá preferência mais a mim que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discípulo.” (Lucas 14:26)
 
Jesus perguntou: 'Quem é minha mãe e meus irmãos?' Então Jesus olhou para as pessoas que estavam sentadas ao seu redor e disse: 'Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe'.” (Marcos 3:33-35)


Nossa discussão deveria ajudar-nos a responder uma questão como a seguinte: Quais as raízes dessa aparente diferença de retórica acerca do casamento e laços familiares em relação àquela exibida nos textos normativos da Mishnah Yebamot 6:6 (que discutimos ontem)?


2) O corpus literário paulino → Paulo de Tarso [c. 5 – c. 67 E.C.]

Epístolas (cartas) no Novo Testamento indiscutivelmente paulinas:
  • Romanos [58-59 E.C.]
  • 1 Coríntios [53-54 E.C.]
  • 2 Coríntios [55/56, 57/58 E.C.]
  • Gálatas [55/57 E.C.]
  • Filipenses [55-56 E.C.]
  • 1 Tessalonicenses [50-51 E.C.]
  • Filemon [55-56 E.C.]

Epístolas cuja autoria ainda é debatida:
  •  Efésios [85-95 E.C.]
  • Colossenses [c. 85-95 E.C.]
  • 2 Tessalonicenses [c. 75-100 E.C.]

Autoria paulina duvidosa:
 
  • 1 Timóteo [c. 120-130 E.C.]
  • 2 Timóteo [c. 120-130 E.C.]
  • Tito [c. 120-130 E.C.]

Autoria falsamente atribuída a Paulo:
  • Hebreus [c. 63-64 E.C.]


3) Textos paulinos usados em polêmicas recentes no meio cristão – e que afetam a vida social por servirem como base argumentativa no meio político:

26 Por isso, Deus entregou os homens a paixões vergonhosas: suas mulheres mudaram a relação natural em relação contra a natureza. 27 Os homens fizeram o mesmo: deixaram a relação natural com a mulher e arderam de paixão uns com os outros, cometendo atos torpes entre si, recebendo dessa maneira em si próprios a paga pela sua aberração.” (Romanos 1:26-27)

“9 Vocês não sabem que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não se iludam! Nem os imorais [πόρνοι: pornoi], nem os idólatras, nem os adúlteros [μοιχοὶ: moichoi], nem os depravados, 10 nem os efeminados [μαλακοὶ: malakoi], nem os sodomitas [ἀρσενοκοῖται: arsenokoitai], nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os caluniadores irão herdar o Reino de Deus.” (1 Coríntios 6:9)

“8 Sabemos que a Lei é boa, contanto que a tomemos como uma lei. 9 Ela não é destinada ao justo, mas aos iníquos e rebeldes, ímpios e pecadores, sacrílegos e profanadores, parricidas e matricidas, homicidas, 10 impudicos, pederastas, mercadores de escravos, mentirosos, para os que juram falso, e para tudo o que se oponha à sã doutrina” (1 Timóteo 1:8-10)


4) Clemente de Alexandria (um Padre da Igreja) e sua resposta às polêmicas em torno da questão do casamento no início da história cristã - sua posição contrária aos cristãos ascetas:


“Há aqueles que dizem que o casamento é fornicação e ensinam que foi introduzido pelo diabo. Orgulhosamente dizem que estão imitando o Senhor, que nem casou nem teve nenhuma possessão neste mundo, gabando-se que compreendem o evangelho melhor que qualquer outra pessoa. A Escritura diz a eles: “Deus resiste aos orgulhosos, e aos humildes dá sua graça” [cf. Tiago 4:6]. Ademais, eles não sabem a razão porque o Senhor não se casou. Em primeiro lugar, ele tinha sua própria esposa, a Igreja; e, em segundo lugar, ele não era um homem comum que precisasse de qualquer ajuda carnal. Nem era necessário, para ele, gerar filhos, já que ele vive eternamente e nasceu como o único Filho de Deus. É o próprio Senhor quem diz: “O que Deus uniu, o homem não deve separar” [cf. Marcos 10:9; Mateus 19:6]. E, novamente: “Como aconteceu nos dias de Noé, eles se casavam, e se davam em casamento, construíam e plantavam, e como aconteceu nos dias de Ló, assim será na vinda do Filho do homem” [cf. Mateus 24:37-42; Lucas 17:26-34]. E para mostrar que não está se referindo aos pagãos, ele completa: “Quando o Filho do homem vier, ele encontrará fé sobre a terra?” [cf. Lucas 18:8]. E, novamente: “Ai daquelas que estiverem grávidas e que estiverem amamentando naqueles dias” [cf. Mateus 24:19], uma afirmação, confesso, que deve ser compreendida alegoricamente. A razão pela qual ele não determinou “os tempos que o Pai reservou por seu próprio poder” [cf. Atos 1:7] foi para que o mundo continuasse de geração em geração.” (Clemente de Alexandria [c.150-c.215 E.C.], Stromata 3:49)

“Sobre as palavras: “Nem todos entendem isso. Há eunucos que nasceram assim, e outros que foram feitos eunucos pelos homens, e alguns que se fizeram eunucos por causa do reino do céu. Quem puder entender, entenda” [cf. Mateus 19:12], eles não entendem o contexto. Após suas palavras sobre divórcio, alguns perguntaram-nos se, se esta for a posição em relação à mulher, é melhor não se casar; e foi então que o Senhor disse: “Nem todos entendem isso, a não ser aqueles a quem é permitido” [cf. Mateus 19:11]. O que aqueles que perguntavam queriam saber era se, quando a esposa de um homem tivera sido condenada por fornicação, era permitido a ele casar-se com outra. Diz-se, entretanto, que vários atletas se abstiveram de relações sexuais, exercendo continência para manterem seus corpos em treinamento, como Astilos de Cróton e Crisão de Himera. Até mesmo o tocador de cítara, Amoebeus, mesmo recém-casado, manteve-se afastado de sua esposa. E Aristóteles de Cirene foi o único homem a desdenhar do amor de Laís, quando ela apaixonou-se por ele”. (Clemente de Alexandria [c.150-c.215 E.C.], Stromata 3:50)

“Portanto, Paulo fala contra aqueles que são como os que mencionei, dizendo: “Já que tendes essas promessas, amados; purifiquemo-nos de toda mancha do corpo e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor do Senhor” [cf. 2 Coríntios 7:1]. “Tenho por vós um ciúme divino, pois vos entreguei ao único esposo para apresentar-vos como virgem pura” [cf. 2 Coríntios 11:2]. A Igreja não pode se casar com outro, tendo obtido um noivo; mas cada um de nós, individualmente, tem o direito de se casar com a mulher que quiser, de acordo com a lei; quero dizer, o primeiro casamento. “Temo, porém, que assim como a serpente, em sua astúcia, enganou Eva, também os vossos pensamentos se corrompam, afastando-se da simplicidade para com Cristo” [cf. 2 Coríntios 11:3], disse o apóstolo, como um mestre cuidadoso e consciente.” (Clemente de Alexandria [c.150-c.215 E.C.], Stromata 3:74)


5) Cristãos gnósticos e sua interpretação das Escrituras:

→ EVA → pneuma: o elemento espiritual da natureza humana;
→ ADÃO → psyche: os impulsos mentais e emocionais.
PNEUMATO-PSICODINÂMICA: a interação entre a pneuma e o psyche.


Gnosticismo: o termo abrange as várias formas de pensamento religioso no Império Romano entre os séculos I A.E.C. e IV E.C., e seu centro encontrava-se em Alexandria. Todas essas formas de pensamento religioso eram marcadas pela dualidade entre o material (psyche), que era rejeitado, e o espiritual (pneuma). O pensamento gnóstico foi declarado herético pela Igreja.