domingo, 8 de julho de 2012

Respondendo a perguntas: Só há uma maneira de interpretar o “Jardim do Éden”?


Se passei a ideia de que apenas uma interpretação do mito do Jardim do Éden fosse possível, então devo ter sido um tanto mal-sucedido em minha abordagem do tema. Minha intenção era justamente o oposto disso. Quis mostrar, com minha abordagem, que várias interpretações eram possíveis: claro que, por conta de minha formação e meus interesses, minha exegese está enraizada na linguagem da tradição religiosa – apesar de ser ela mesma uma exegese que faz uso dos conhecimentos históricos, de concepções metafóricas da realidade, e de minha própria apreensão da realidade.

Em nossas discussões, o mito do Éden foi analisado como base argumentativa para a construção de determinadas concepções cristãs sobre a sexualidade, a liberdade e o pecado, e por essa razão, não exploramos outros mitos semelhantes (Gilgamesh), por exemplo. Mas poderíamos ter seguido um caminho diferente se o mito per se fosse o tema da discussão.

Se deixássemos os detalhes da discussão teológica cristã de lado, poderíamos, por exemplo, enxergar o mito de Adão e Eva como uma discussão metafórica do conflito entre coletores/caçadores e agricultores: a “maçã” (ou seja lá o que foi o tal “fruto”) representa aquilo que antes era coletado livremente e agora é plantado por mulheres (Eva) – lembrem-se que é Eva quem oferece o fruto a Adão; o próprio fato de culturalmente entendermos esse fruto como “maçã” faz muito sentido: supostamente, as maçãs se originaram no Cazaquistão, se espalhando depois pelo Cáucaso; como a “macieira” (a árvore) representa o conhecimento do bem e do mal, poderíamos enxergar isso como o conhecimento necessário para se viver uma vida em assentamentos rurais, onde os homens deveriam saber o que é adequado a uma vida de agricultura (seja em termos de regras para o convívio social, que em assentamentos rurais significaria um ambiente mais populoso, seja em termos da própria atividade agrícola e pecuarista) – diferente da vida anterior como caçadores e coletores, quando estavam em número menor e certas práticas sociais eram mais toleradas; como no mito Deus não se alegra com a atividade agrícola, os homens (representados por Adão e Eva) são expulsos do Jardim – logo, há um claro conflito aí: o “autor” (i.e., os autores) defende uma visão “conservadora” de retorno ao que funcionava antes; certamente, se fosse assim, o “autor” percebe os males duma vida nos grandes assentamentos agrícolas e enxerga esses males como uma punição pela escolha feita pelo homem.

E poderíamos continuar... poderíamos pensar em incontáveis possíveis explicações para as origens do mito, e para os elementos presentes nele! Só se deve lembrar que dependendo de qual seja nosso objetivo em discutir esse mito – ou qualquer outro –, o caminho exegético que escolhemos deve ser coerente com nossos objetivos. O caminho que escolhi seguir no minicurso era o mais coerente com o que se estava discutindo (que não era o Jardim do Éden per se), mas há incontáveis possibilidades!

Grande abraço a todos!

+Gibson